sábado, dezembro 16, 2017

13 anos da vida do blogue Ucrânia em África

Hoje o nosso blogue fez 13 anos da vida. Lançado em 15 de dezembro de 2004 para defender a Revolução Laranja, nunca se pensou atingir a audiência atual: de maio de 2010 até hoje, o blogue já teve mais de 1.530.000 visitantes. Uma pequena grande obra.
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Obrigado à todos os que seguem o nosso blogue, principalmente aos ucraniano-brasileiros e todos os amigos da Ucrânia. Sem o vosso empenho e interesse pela pátria distante dos antepassados, nunca estaríamos onde estamos hoje.

The Ukrainians (Grã-Bretanha) “Shchedryk”

Abraços e Glória à Ucrânia! 

sexta-feira, dezembro 15, 2017

Os 12 museus mais inusitados da Ucrânia (14 fotos)

Hoje, graças à pesquisa de Zruchno Travel, o nosso blogue oferece uma seleção de museus mais incomuns e mais engraçados da Ucrânia, que certamente não deixarão ninguém aborrecido. Os museus escolhidos permitem conhecer as subtilezas da preparação da aguardente, perceber melhor os seus próprios sonhos, apreciar o “toucinho Andy Warhol” ou participar na cerimónia de um verdadeiro casamento ucraniano.

1. Museu do sexo e culturas sexuais do mundo (Kharkiv)
foto @io.ua
O Museu das Culturas sexuais mundiais é um dos museus mais incomuns e extravagantes da Ucrânia. A base de sua exposição é uma coleção privada do professor Valentyn Kryshtal, professor da Academia Médica de Kharkiv. Diferentes salas apresentam exposições dedicadas à cultura sexual de doze países. Aqui você pode ver pinturas egípcias e estatuetas antigas, reproduções de pinturas de Picasso, Manet e outros artistas famosos, bem como fotografias e desenhos contemporâneos. Existe uma sala de deviações e uma outra, especialmente pensada em adolescentes, que permite estudar anatomia, fisiologia e psicologia de uma pessoa, bem como ouvir palestras sobre a educação sexual.

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2. Museu da história de casa de banho / banheiro (Kyiv) 
Aqui, você pode ver não apenas a maior coleção de bidés / banheiros de souvenir / lembrancinha, mas também aprender muitos factos interessantes sobre a história de WC. A coleção do museu apresenta uma grande variedade de bidés/banheiros de quase todos os tempos – desde as panelas noturnas até bidés/banheiros com controlo tácito, feitos de cerâmica, porcelana, prata, madeira, metal e plástico. Também no museu há uma loja de souvenirs onde você pode comprar um bidé/banheiro-rádio, um bidé/banheiro isqueiro, o livro “A história mundial de (WC)”, um bidé dourado e muitos outros itens interessantes. O museu frequentemente recebe uma variedade de eventos que muitas vezes não estão diretamente ligados ao tema principal da exposição.
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Visitar: MuseumWC

3. Museu dos sonhos (Kyiv)
foto @kudago.com
Da onde vem os sonhos e porque sonhamos com algo que nunca conhecemos, tudo isso se pode descobrir no Museu dos Sonhos em Kyiv. Cada parte de exposição é uma instalação dinâmica, e cada visitante se torna um expositor e um pesquisador de seus próprios sonhos. O museu tem uma Janela dos Sonhos, onde todos podem deixar uma descrição de seu sonho. Você também pode espreitar ou mesmo estudar os sonhos dos outros. Se você tiver alguma dúvida, você pode descreve-la no papel e deixá-la numa das caixas do Mural de Associações Livres, e chegando ao museu na próxima vez, encontrar a resposta na caixa. Além disso, o museu periodicamente organiza as conferências abertas, seminários, exposições, aulas de mestrado e mostras de filmes.


4. Museu de coisas inúteis (Kyiv)
foto @kubikus-rubikus.livejournal.com
Um dos museus mais incomuns de Kyiv está localizado no território da fábrica de processamento e utilização de materiais reciclados. A coleção começou a ser formada imediatamente após a instalação da fábrica em 1943. Aqui, são reunidos os objetos mais estranhos e incomuns, peças antigos e vintage, alguns com mais de duzentos anos. A coleção é reabastecida pelos visitantes e funcionários da fábrica, que classificam e escolhem os itens mais interessantes. Entre o grande número de peças se pode ver um antigo conjunto de ferramentas de cabeleireiro, uma máquina de processamento de cânhamo, um antigo samovar com uma bota e muito mais. A maior parte da exposição é exposta ao ar livre, e o resto, a parte menor, numa exposição.

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5. O Museu da ferramenta antiga “Pátio do Mestre” (Zhytomyr)
foto @remeslennik.org
O museu privado “Pátio do Mestre” (Handicraft House) do Fedir Yevtushenko é uma espécie de “máquina do tempo” que lhe permite viajar ao passado e se familiarizar com as profissões antigas, saber mais sobre o trabalho dos ferreiros, barbeiros, alfaiates e carpinteiros, e ver os instrumentos reais (os 115 machados diferentes!), usados pelos mestres e artesões, criando as coisas necessárias na vida quotidiana. A coleção do museu é dividida em seções expositivas dedicadas a ocupações específicas ou a instrumentos individuais. Todos os objetos são ferramentas, dispositivos, máquinas e mecanismos originais, muitos dos quais ainda estão funcionando. O museu possui uma forja com montanha e bigorna, uma das quais foi construída em 1749. Em 2016 museu abriu uma grande exposição de brinquedos infantis, em 2017 aqui é exibido o artesanato checo. Num bom tempo, os hóspedes podem relaxar na área de churrasco ao ar livre e tomar o chá de samovar, alimentado pela madeira.

6. Museu da Som do Vasyl Pinchuk (Odessa)
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O Museu da Som está localizado em Odessa. Aqui está reunida toda a história de gravação e repercussão de som. O museu abriga antigas caixas mecânicas de música, gramofones e gira-discos, rádios e gravadores. Os visitantes podem ver uma coleção exclusiva de equipamentos raros e modernos, uma exposição dos mais antigos aos mais modernos objetos portadores de som, itens ligados ao mundo musical, como cartazes, desdobráveis, discos LP com logótipos de estúdios outrora muito conhecidos.
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A peculiaridade do museu reside no fato de que é possível não apenas ver a exposição, mas também usar todos os objetos, ouvindo o seu som. Desde as melodias de antigas caixas musicais ao som de gramofones e gira-discos.

Visitar: Museum of Sound

7. Museu de casamento ucraniano (vila Velikii Budyshcha, região de Poltava)
foto @ingreen.in.ua | visitar
Na pequena vila de Veliki Budyshcha (conhecida pelo menos desde 1660), na região da Poltava, apenas à 6 km da famosa Dykanka descrita pelo Nicolas Gogol, está situada a Casa da Cultura local que obriga no seu interior a decoração de uma casa regional tradicional. É o Museu do casamento ucraniano, que mostra as decorações de casamentos ucranianos de diferentes épocas, itens antigos da vida quotidiana, móveis, fotos, as camisas tradicionais ucranianas (vyshyvankas) e toalhas bordadas. O orgulho do museu é o vestido de casamento de uma residente local, costurado em 1926. Todos os adereços do museu podem ser usadas, o que significa que os visitantes podem os usar, para celebrar o casamento tradicional ucraniano ao estilo étnico. Aos grupos de turistas são oferecidos os passeios interativos que recriam as tradições dos antigos casamentos rurais com todas as tradições ucranianas presentes: canções, piadas, poesia e, claro, banquete.


8. A fábrica e mina de sal de Drohobych (Drohobych)
foto @navkoloua.com | visitar 
A fábrica e mina de sal de Drohobych em primeiro lugar é uma empresa industrial que funciona, pelo menos desde 1250 até hoje. Na era soviética, a fábrica produzia 11 mil toneladas de sal por ano, mas agora o sal é extraído novamente por métodos de artesanato, evaporando-o da salmoura natural em uma lareira de forno à lenha. É necessário fazer um registo preliminar, solicitando uma visita guiada, durante a qual os turistas visitarão a mina de sal e conhecerão os processos de trabalho, além disso, poderão comprar, como lembrança uma deliciosa “cabeça” de autêntico sal evaporado.


9. Complexo-museu cultural da história da cerveja “Lvivarnia” (Lviv)
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O Museu da Cerveja de Lviv funciona no território da mais antiga cervejaria de Lviv. Hoje é um complexo museológico e cultural, único na Ucrânia. Sua coleção contém tudo o que diz respeito a cerveja e Lviv. Aqui se pode ver um fogão de cerveja antigo, uma adega, barris para maturação de cerveja, uma coleção de garrafas e canecas de cerveja. Muitas das exposições são interativas, criadas em 3D e usando as sombras teatrais. No segundo piso é possível ver a cerveja ao microscópio, contemplar o processo de fabricação de uma bebida de lúpulo e até criar a sua própria variedade de cerveja. No final do passeio, os visitantes são convidados à saborear as cervejas mais variadas produzidas em Lviv.

Visitar: Lviv'arnya

10. Museu de arte e horilka-barSalo” (Lviv)
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“Nunca haverá demais toucinho!” – pensaram em Lviv e abriram o único na Ucrânia, e possivelmente no mundo, o Museu do Toucinho. Esta é uma instituição moderna que combina um museu, um restaurante e um palco de arte, onde são realizadas festas, tertúlias literárias e concertos. A coleção do museu contém os mais diversos objetos de arte feitos de toucinho: pinturas e desenhos animados, como “Toucinho do Malevich” e “Toucinho do Andy Warhol”, bem como esculturas como “A orelha Van Gogh”, “A mão do Buda”, “A cabeça do Elvis Presley”, entre outros. A principal exposição do museu é um enorme coração de toucinho. Os visitantes também recebem um menu/cardápio com pratos nacionais ucranianos e uma excelente seleção de entradas feitas de toucinho. Os particularmente populares são sushi e rolinhos, churrasco de toucinho e claro, o prato principal – toucinho em chocolate.

Visitar: Salo

11. Museu da magia Hutsul (aldeia de Verkhovyna, região de Ivano-Frankivsk)
foto @newsparky.livejournal.com
O museu da magia Hutsul apresentará os costumes e segredos de feiticeiros e curandeiros dos Cárpatos – molfares. A coleção do museu apresenta uma variedade de itens que já foram utilizados por molfrares para criar curas e poções que ajudam as pessoas. Entre os objetos expostos é possível ver o pilar, a faca e a cruz, as principais ferramentas de trabalho do mais famoso feiticeiro dos Cárpatos – Mykhailo Nechay. Aos visitantes são oferecidas as aulas práticas de fabricação de colheres de madeira, tecelagem e caligrafia espelhada e a proposta mais ousada – o misterioso passeio noturno “Em busca de molfrares”.

Visitar: endereço

12. Museu de aguardente Vagão Samohon (aldeia de Polyanytsya, região de Ivano-Frankivsk)
foto @Kurt Lee
O primeiro Museu de Aguardente nacional foi inaugurado na Ucrânia em 2013 na cidade de Ternopil pelo empresário do ramo de restauração, Mykhaylo Hrosulyak. Agora o museu se mudou para a aldeia de Polyanytsya, perto da famosa estância turística ucraniana de Bukovel. O museu está situado numa carruagem austríaca vintage, que obriga uma coleção dos mais variados dispositivos de alambiques: clássico e exclusivo, funcionais e raros, grandes e em miniatura, locais e trazidos de todos os lugares do mundo. Aqui são expostos os alambiques feitos de um trombone, de uma bota de borracha e um bule de chá, de uma caldeira e até mesmo de peças sobressalentes de um avião. Além dos dispositivos reais, os visitantes poderão avaliar uma coleção de variedades de aguardente de todos os cantos do mundo.

Visitar: Vagão Samohon

quinta-feira, dezembro 14, 2017

Crimes soviéticos: a morte do cientista e teólogo Pavel Florensky

8 de dezembro de 1937, após a transferência do campo de concentração soviético de Solovki, foi fuzilado, pela ordem do NKVD, o destacado filósofo e teólogo russo, cientista, poeta, inventor e sacerdote, Pavel Florensky.

Os últimos anos da sua vida:
Pavel Florensky, no momento da sua prisão em 1933, foto do arquivo de NKVD
no verão de 1928 foi enviado ao exilo para a cidade de Nizhny Novgorod, mas no mesmo ano, após o pedido da Yekaterina Peshkova o exilo foi cancelado com opção de emigrar para Praga, mas Florensky preferiu ficar na Rússia soviética;
– no início da década de 1930 foi alvo de uma campanha agressiva da imprensa soviética;
– em 1933 foi preso e condenado à 10 anos do GULAG;
– em 1933 foi deportado ao campo de concentração siberiano de “Svobodny” (Livre), onde trabalhou no departamento da pesquisa científica do BAMLAG;
– em 1934 foi enviado para Skovorodino, onde realizou pesquisas científicas numa estação experimental de permafrost;
– em 1934 ele foi enviado ao campo de concentração de Solovki, onde trabalhou na fábrica da indústria de iodo, lidando com o problema da extração de iodo e ágar-ágar de algas marinhas e patenteou mais de dez descobertas científicas;
– aos 25 de novembro de 1937, foi condenado à pena capital por uma troika do NKVD de Leninegrado e foi fuzilado no dia 8 de dezembro...

De acordo com as recordações do Alexey Favorsky, que se encontrou com Pavel Florensky nas vésperas da sua morte: Florensky em Solovki era o homem mais respeitado – genial, resignado, corajoso, filósofo, matemático e teólogo. Minha impressão de Florensky, e esta é também a opinião de todos os prisioneiros que estavam com ele – alta espiritualidade, atitude benevolente para com as pessoas, riqueza da alma. Tudo aquilo que enobrece uma pessoa” (fonte).

O fator russo do retorno dos combatentes do Daesh/EI (infografia)

A imprensa internacional divulgou a infografia com o número dos combatentes estrangeiros do Daesh/EI (cerca de 40.000 pessoas de 110 países), e também do número dos que já voltaram aos seus países de origem – cerca de 5.600 dos 33 estados.
A fonte da informação é empresa americana de consultoria Clarion Project.org, especializada nas questões de segurança.
Os cidadãos americanos no Daesh/EI
O número dos cidadãos russos nas fileiras do Daesh/EI é o mais alto de todos os outros países e estados, assim como o número dos combatentes russos retornados, acima dos 10% dos que estiveram ao serviço do Califado. A língua russa até já se tornou a segunda língua mais falada do Estado Islâmico, ultrapassando, na sua importância, o inglês.
Os cidadãos dos restantes países do mundo no Daesh/EI
O blogueiro militarista russo el-murid escreve que uma parte considerável dos militantes do Daesh/EI, falantes do russo, em vez de voltarem para casa, passaram para outras frentes de combate, nomeadamente no Egito. Outros voltam mesmo para Rússia.
O membro russo do Daesh/EI prepara-se para decapitar um russo capturado pelo Daesh/EI na Síria

O nosso blogue já escreveu sobre os “leõezinhos do Califado”, as crianças e adolescentes, formados na ideologia da jihad, com experiência real de combate e de participação na guerrilha. O número dos pupilos formados nos últimos 4 anos no Iraque e Síria é avaliado em 2.500-3.000 jovens, até cerca de 200 deles são naturais da Rússia, não se sabe quantos voltaram ou pretendem voltar ao seu país de origem...
Atentados terroristas na Europa e fator feminino
Recentemente, o Daesh/EI divulgou o vídeo em que mostrou o seu grupo que, no início de novembro de 2017, atacou a base aérea síria/russa em Deir ez-Zor:
No centro está o líder sírio, os restantes membros do grupo são formandos do programa “leõezinhos do Califado”. Penúltimo à direita é um militante russo, que falando russo e usando a uniforme russa conseguiu introduzir o grupo dentro do perímetro do aeroporto, passando todos os postos de controlo. O último balanço da sua operação, de acordo com o mesmo el-murid, são 2 aviões destruídos e cerca de 80 pessoas mortas, todos os membros do grupo foram liquidados na operação.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

Prémio Sakharov é atribuído à oposição democrática da Venezuela

A União Europeia atribuiu o Prémio Sakharov de 2017 à oposição democrática da Venezuela. O ex-presidente da zona Metropolitana de Caracas — Antonio Ledezma é um dos rostos da oposição a Chávez e Maduro. Após 1002 dias da prisão — conseguiu fugir do seu país a tempo de receber, em Estrasburgo, o prémio que a Europa atribui anualmente a figuras que se distinguem pela Defesa dos Direitos Humanos.

Quando a União Europeia anunciou, a 26 de outubro, que iria atribuir o Prémio Sakharov à oposição democrática da Venezuela, Antonio Ledezma era um dos presos políticos do regime de Nicolás Maduro. Mas após 1002 dias de cativeiro (a maioria em prisão domiciliária), o antigo presidente da zona Metropolitana de Caracas — e um dos rostos da oposição a Chávez e Maduro — conseguiu fugir do seu país a tempo de receber, esta quarta-feira, em Estrasburgo, o prémio que a Europa atribui anualmente a figuras que se distinguem pela Defesa dos Direitos Humanos.

Antonio Ledezma, a quem Maduro chama de “vampiro“, chegou a ser apontado como candidato contra Hugo Chávez em 2008, mas acabou por avançar para a presidência da zona metropolitana de Caracas. Acabou por vencer o candidato do partido chavista e logo no mais importante cargo autárquico. Chávez contornou a questão e criou um “chefe de Governo do distrito capital” que assumiu parte dos poderes da competência de Ledezma. Em protesto, o autarca fez greve de fome. Desde então tem sido um dos rostos da oposição ao regime. Primeiro de Chávez, depois de Maduro. Acabou detido a 19 de fevereiro de 2015 pela secreta venezuelana no seu escritório na Torre EXA, em Caracas. Chegaram a ser disparados tiros para o ar no momento da detenção e esteve preso mais de dois meses na prisão militar de Ramo Verde até ser transferido para prisão domiciliária por razões de saúde.

Conseguiu libertar-se a 17 de novembro de 2017. Depois fugiu para Colômbia e de çá voou para Madrid, onde foi recebido por Mariano Rajoy, o que irritou ainda mais o regime de Maduro. Agora sente-se livre e vai receber — ao lado de outro rosto do combate ao regime de Maduro, Leopoldo López — presencialmente o prémio Sakharov. Com o tempo contado, em Estrasburgo, concedeu uma entrevista ao Observador.

Nicolás Maduro é pior do que Hugo Chávez?

São farinha do mesmo saco. São ambos representantes do populismo maléfico na política, que tira vantagem da democracia para chegar ao poder. Não para melhorar e aprofundar o sistema, mas antes para se enraizarem, como acontece com todas as ditaduras, no exercício do poder, sem querer saber dos danos que provocam aos cidadãos. Por isso, a situação – antes com Chávez e agora com Maduro – vai de mal a pior. São defensores do mesmo plano demagógico e de uma governação cheia de anacronismo, de esquemas fraudulentos, como o câmbio e o controlo dos preços, inspecionando tudo e fazendo com que, hoje em dia, a Venezuela tenha a inflação mais alta do mundo. Com este controlo dos preços, tem sido um boomerang [arremesso] contra os consumidores. E com o controlo do câmbio, enriquecem-se as elites que tornaram a economia venezuelana num casino financeiro. Um dólar hoje em dia – para que tenha uma ideia de como está a conversão na Venezuela – é equivalente a 100 milhões de bolívares. E para ter uma ideia da crise social, um trabalhador num supermercado na Venezuela, numa categoria qualquer, ganha um salário médio não superior a cinco dólares por mês. São salários paupérrimos.

E é possível tirar Maduro do poder de forma pacífica e democrática?

Nós temos insistido na saída de Maduro pela via pacífica. Temos insistido e por isso propusemos, no ano passado, um referendo revogatório. Lamentavelmente, foram logo encerradas todas as vias para um referendo revogatório.

O Partido Comunista Português, que tem deputados aqui no Parlamento Europeu, tem defendido Nicólas Maduro em intervenções política. Tem ideia que está num Parlamento em que existem forças que defendem o regime de Maduro?

É a liberdade de pensamento e há que o respeitar. São opiniões. Gostava que [os deputados do PCP no Parlamento Europeu] fossem à Venezuela para terem noção dos grandes desequilíbrios que temos, em distintas áreas. Deixe-me sublinhar algumas: a situação de pobreza em que vivem muitos venezuelanos, que têm de vasculhar o lixo para comer. Isso é insólito num país rico como o nosso, que tem das receitas de petróleo mais elevadas do mundo. Também podem ir à Venezuela e ver que temos dos mais altos níveis de insegurança, que são níveis superiores aos de qualquer país europeu: estamos nos primeiros lugares dos países com mais insegurança do mundo. Somos ainda um país com uma grande interferência económica do Estado e onde os governantes são generais, narcotraficantes, terroristas e corruptos… Se é isso que [os deputados comunistas] querem defender, é sua responsabilidade.

Ler o texto integral da entrevista.

A vida do cão: a morte do desertor americano Charles Jenkins

foto @Reuters
No Japão, aos 77 anos, morreu Charles Jenkins, o desertor americano que em 1965 fugiu para a Coreia do Norte. Ele viveu 39 anos na posição de prisioneiro privilegiado e só em 2004 conseguiu se mudar para o Japão. Toda a sua vida lamentou a deserção.
Antes da deserção | foto @Wikipédia
Em 1964, aos 24 anos de idade, nativo da Carolina do Norte, Charles Jenkins, foi colocado na unidade do exército dos EUA que protegia a zona desmilitarizada entre Coreia do Sul e do Norte, do lado sul-coreano. Com medo da morte, patrulhando a fronteira, ou sendo enviado ao Vietname, ele decidiu fugir para a Coreia do Norte, esperando receber o asilo na embaixada soviética e eventualmente retornar aos Estados Unidos como parte de uma troca de prisioneiros.

Em janeiro de 1965, Jenkins bebeu 10 latas de cerveja (para acalmar os nervos), cruzou uma das fronteiras mais protegidas do mundo e se rendeu aos guardas fronteiriços da Coreia do Norte. Ao contrário do seu plano, a URSS não lhe concedeu asilo. Em vez disso, ele ficou preso na RPDC por 39 anos.

Jenkins foi reassentado em Pyongyang próximo de três outros desertores americanos: James Joseph Dresnok (morreu em 2016), soldado Larry Allen Abshier e especialista Jerry Wayne Parrish (ambos já falecidos). Nos próximos oito anos os americanos foram obrigados a aprender a língua coreana e foram pesadamente indoutrinados na ideologia juche. Em 1972 eles receberam a cidadania norte-coreana, casas separadas e trabalho incomum – representavam os vilões americanos e ocidentais nos filmes de propaganda da Coreia do Norte. Além disso, eles ensinaram inglês na academia militar em Pyongyang. De acordo com Jenkins, Kim Il Sung estava entre os seus alunos.

Além disso, Jenkins contou que foi vários vezes espancado e sujeito, em cativeiro, aos procedimentos médicos cruéis e desnecessários. Como, por exemplo, a remoção da sua tatuagem do exército americano sem anestesia. Era o inferno, como ele se lembrava.

Em 1980, as autoridades norte-coreanas arranjaram lhe uma esposa. A japonesa Hitomi Soga de 21 anos. Aos 18 anos (Sic!), em agosto de 1978, ela foi raptada (uma dos, pelo menos, treze cidadãos japoneses) para ensinar os espiões norte-coreanos à língua japonesa. Jenkins e Soga foram forçados à se casar, algo que aconteceu apenas algumas semanas após o primeiro encontro. Ódio aos seus raptores norte-coreanos permitiu que os dois (que mais tarde tiverem duas filhas, Mika e Brinda) gradualmente se tornaram amigos e até se apaixonaram.
Hitomi Soga em 2004 | foto @AFP/GettyImages
Eu sabia até que ponto a minha esposa sentia saudades do Japão, então todas as noites a beijava três vezes e dizia “oyasumi boa noiteem japonês. Ela me respondia em inglês. Nós fazíamos isso para não esquecer quem somos e de onde viemos”, contou o militar americano no livro das suas memórias.

Charles Jenkins e Hitomi Soga eram na verdade prisioneiros na RPDC, mas tinham privilégios em relação aos residentes comuns do país. Quando a fome surgiu na década de 1990, o governo fornecia lhes arroz, sabão, roupas e cigarros. As pessoas comuns não recebiam nada, recordava Jenkins.

Jenkins já não esperava deixar a Coreia do Norte, mas em 2002 a RPDC libertou cinco cidadãos japoneses que foram anteriormente raptados pelos serviços secretos norte-coreanos. Entre eles estava a sua esposa, Hitomi Soga. Dois anos depois, em 2004, Pyongyang permitiu que Jenkins e suas filhas a seguissem.
Charles Robert Jenkins e a sua esposa Hitomi Soga, na sua chegada em Toquio em 18 de julho de 2004.
foto @Koichi Kamoshida / Getty Images
No Japão, o americano apareceu diante de um tribunal militar na sede do exército dos EUA. Pela deserção de 39 anos atrás, ele recebeu a pena de 30 dias de prisão, cumprindo 25 dias e saindo mais cedo por bom comportamento. Além disso, Jenkins foi demitido do exército com perca de todos os direitos e privilégios, rebaixando ao posto do soldado E-1, o mais baixo na hierarquia militar americana. No entanto, entre os quatro soldados americanos que fugiram para a Coreia do Norte nos anos 1960, Jenkins foi único que saiu do país com a vida, os restantes morreram naquela ditadura comunista.
Com esposa e filhas | foto @Paula Bronstein / Getty Images
AFP/JIJI PRESS
Eu vivi uma vida de cão na Coreia do Norte. Todos viviam mal. Não há nada para comer. Não há água corrente. Não há eletricidade. No inverno você congela: as paredes do meu quarto estavam cobertas de escarcha, se lembrava Jenkins. Deixando a Coreia do Norte aos 64 anos, ele realmente tive que aprender à viver de novo: ele não falava japonês, não conseguia dirigir um carro, nunca tocava um computador e não sabia o que é a internet.
Ex-militar aprende o que é Internet | foto @GettyImages
O resto de sua vida, Jenkins e sua família moraram na ilha de Sado, onde tinha nascido a sua esposa. O ex-militar encontrou um emprego local, trabalhando como guia das boas-vindas aos turistas num parque de diversões Mano Park. Ele se tornou uma celebridade local, e em 2008 ele publicou um livro de memórias, que vendeu no Japão 300 mil cópias. Todos neste país sabem quem eu sou. Mesmo as jovens vêm e pedem permissão para me beijar, eu juro, contava Charles Jenkins.
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Ele chamou a sua fuga para a RPDC de seu mais terrível erro, e anos após fixar residência no Japão temia que ele e sua família podiam serem mortos pelos serviços secretos da Coreia do Norte. Não consigo deixar a Coreia do Norte no passado. Este país pode fazer qualquer coisa. Eles não se importam”, dizia Charles Jenkins.

Voltando a essa decisão, posso dizer que fui um idiota. Se houver um Deus no céu, então ele me guiou por tudo isso”.
Charles Jenkins, na entrevista à CBS em 2005

A televisão japonesa informou que a causa de sua morte foram problemas cardíacos.